Autor: Ryana Gabech
Poema: Corte

 


O pedaço de pano amarrado na perna.
Ela queria se livrar, abrir a tampa do vidro.
Era preciso arrancar a raiz.Doía muito arrancar de uma vez, e doía muito arrancar aos poucos.
O pedaço de pano.

Cheio de cera de abelha.
O pedaço esmagado pelo movimento.
Queria arrebentar o laço.
Queria adoecer a doença, matar aquela parte.

Queria uma sombra ou uma arma.
Um encosto ou uma solução aquosa.
Queria molhar o pedaço de pano.
Queria vedar a boca.

Não responderia mais nada.
Que observassem.
Que observassem ela, seus gestos, sua língua, sua vesícula, seu estômago, sua febre.
E que silenciassem apenas.

Que silenciassem diante da sua gosma viva, da sua fraqueza, da sua desistência.
Que perna amarrada perante todos fosse um testemunho.
Que o decepar do membro fosse explícito.
Era preciso soltar a fera que ardia o pano encerado.

Que não perguntassem mais nada nada.
Que a deixassem ser a lamúria, ser o breu do fim da noite, ser o bueiro, ser a lama.
Que absolvessem, cruscificassem, aplaudissem ou a deixassem de vez.
Que vissem nela aquele pedaço arrematado.

O pedaço marcado por seus próprios dentes.
Que pudessem enxergar, que ela não conseguia tirar aquela parte.
Que ela tentava enterrar o membro mas que ele lhe rogava a pele,
puxava-lhe os cabelos, e se deitara com ela antes de se enozar em seu corpo.

Que o pedaço de pano encerado amarrado na perna era uma crosta, um germe,
uma fecundação, que ela não conseguia se livrar .
Que o pedaço de pano na perna dolorida se alimentava de sua morte, de sua lágrima, de sua ritmia cardíaca.
O pedaço de pano de aço havitava dentro dela, mais que a perna.

O pedaço dela.
A perna inteira ficou perna trapo.
E era ela quem tinha amarrado e era ela quem ia ter que cortar.