a calma suicida dos relógios
consome os pulmões que esvoaçam
na fumaça dos cigarros e demais tóxicos
com o mesmo silêncio solitário das casas
e suas janelas abertas nos domingos e feriados
com a mesma tristeza das frutas
espezinhadas no término da feira
com o mesmo vazio das cadeiras escolares
abandonadas após o soar do sino
com o mesmo espanto de nossos avós e bisavós
e seus olhares colados nas paredes das salas
nutre-se das epidermes que dormem
nas varandas
uma cadeira de balanço
marca os ponteiros de uma espera sabida
porém nunca desejada
alimenta-se na mesma mesa
e tem o mesmo anseio dos vermes
a calma suicida dos relógios
não tem tempo para numerar seus funerais
a calma suicida dos relógios
não possui a fúria das enchentes e terremotos
a calma suicida dos relógios
disfarça sua ternura no leite materno
devora os seios na cama dos amantes
e queima os colchões
a calma suicida dos relógios
se esconde na música poema cheiro amor
só para rir das civilizações
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