"Vivemos, será que na vida se vive?
Não para sempre na terra,
só um pouco no tempo"


(Nezahualcóyotl in Poema asteca)

 



a calma suicida dos relógios

         consome os pulmões que esvoaçam

na fumaça dos cigarros e demais tóxicos

com o mesmo silêncio solitário das casas

         e suas janelas abertas nos domingos e feriados

com a mesma tristeza das frutas

         espezinhadas no término da feira

com o mesmo vazio das cadeiras escolares

         abandonadas após o soar do sino

com o mesmo espanto de nossos avós e bisavós

         e seus olhares colados nas paredes das salas

nutre-se das epidermes que dormem

         nas varandas

uma cadeira de balanço

marca os ponteiros de uma espera sabida

                            porém nunca desejada

         alimenta-se na mesma mesa

e tem o mesmo anseio dos vermes

         a calma suicida dos relógios

não tem tempo para numerar seus funerais

         a calma suicida dos relógios

não possui a fúria das enchentes e terremotos

         a calma suicida dos relógios

disfarça sua ternura no leite materno

         devora os seios na cama dos amantes

                            e queima os colchões

         a calma suicida dos relógios

se esconde na música poema cheiro amor

         só para rir das civilizações