nunca fez tanta falta uma mão solta
na tarde de domingo
para escalar um coração que chora
ou apanhar uma pedra de Atenas que insiste em resistir
no jardim de ruínas por onde passava
mergulha em mares antigos para ver o esqueleto de naus
e busca um baú com a imagem ancestral de seu próprio suicídio
e lá também não encontra a mão tão procurada por Breton
se une à lava de um vulcão derretendo casas
aquecendo órgãos
e
prometendo a eliminação completa
desvia a ardência de ruas onde ainda dormem alguns lírios-amarelos
e dois
meninos abraçados: estátua de bronze
nunca fez tanta falta uma mão solta
cada dedo uma flauta
para tocar domingos no corpo decomposto
para tirar a cabeça de dentro do rio e erguê-la como troféu
para colher os braços da fogueira do quintal
para cortar a corda e aliviar o pescoço
para juntar o revólver e beijar a bala
para trazer flores e depositar sobre o colchão
mas nada disso importa
porque ele jaz debaixo de sua cama
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