"andamos sozinhos por ruínas"

(Giuseppe Ungaretti)

 




nunca fez tanta falta uma mão solta

                            na tarde de domingo

para escalar um coração que chora

ou apanhar uma pedra de Atenas que insiste em resistir

no jardim de ruínas por onde passava



mergulha em mares antigos para ver o esqueleto de naus

e busca um baú com a imagem ancestral de seu próprio suicídio

e lá também não encontra a mão tão procurada por Breton

se une à lava de um vulcão derretendo casas

         aquecendo órgãos

                           e

prometendo a eliminação completa

desvia a ardência de ruas onde ainda dormem alguns lírios-amarelos

                                    e dois

meninos abraçados: estátua de bronze



nunca fez tanta falta uma mão solta

          cada dedo uma flauta

para tocar domingos no corpo decomposto

          para tirar a cabeça de dentro do rio e erguê-la como troféu

para colher os braços da fogueira do quintal

          para cortar a corda e aliviar o pescoço

para juntar o revólver e beijar a bala

          para trazer flores e depositar sobre o colchão



                                      mas nada disso importa

                porque ele jaz debaixo de sua cama