Autor: Marco Vasques
Poema: Sem título 4

 



“Se tenho gosto, é quase só
pela terra e pelas pedras.
Meu almoço é sempre o ar
a rocha, o carvão, o ferro”
(Arthur Rimbaud in Uma temporada no inferno)







HÁ UM VASO SANITÁRIO SOBRE A MESA

mas ninguém puxa a descarga
porque no cinema mudo da metrópole
a síndrome do esquecimento não está na tela
e sim nos ouvidos e olhos que moram no ventre

o reconhecimento pelo tato é insuportável
e as cadeiras comunicam ao mastigar matutino
                    que tudo foi um engano
pois o afiar da faca nos dentes não previa prótese

enquanto o aumentar do volume dos talheres
anuncia a pressa das imagens
todos correm para buscar pernas mecânicas
e um louco de pedra pintado a carvão

faz malabarismos entre os fios elétricos

         passando de um poste a outro aos berros

pedindo que todos levem a valsa do casamento
unida às primeiras noites de sexo para suas casas
porque as igrejas e as prostitutas serão exterminadas