“chegamos ao limite da água mais funda”
na loucura lúcida de estarmos respirando túmulos
expostos em uma moldura
afogamos os próprios pulmões
cada homem com seu rosto difuso e próprio
a infância a perseguir nuvens
e aves que brindam
identificadas pela repetição simbólica
uma caixa de fósforo num museu qualquer
onde a profecia seca ensurdece o canto violado
no matadouro inarmônico da paternidade
imobiliza todo o amor que sentiste
porque é impossível viver sem usurpar
a verdade da idade ancestral, térrea, e vivificada na pele
que esconde o vermelho do assombro da terra
paralítica palavra que inalou meu caminho
perdição na luz: Rimbaud
sol noturno a caminha da Palestina: Baudelaire
ave alimenta um santo no monturo de Jô: Gogol
homem comendo as vísceras: Genet
o útero me foi negado
e meu telhado envelheceu sem ternura
trouxeram as lágrimas como milagres de catedrais
sou uma página em branco
um espelho aceso na enfermaria
mendigo noturno arrastado em tintas turvas
para além da linguagem tumular
um tumor esconde o desejo mais terno
e esgarça a linguagem até mostrar
a escolta e o assombro estéril do tempo
qualquer ventilador nos traz um olho
e a vacina ancora na epiderme
um corpo que se harmoniza com o asfalto
minha casa não foi meu ninho
comida paraplégica e ebulição fecal
dorme no berço triangular da garganta
um pedaço de terra mecânica
o ponteiro do relógio arruina a acidez das pétalas metálicas
e em casa as palavras em lágrimas num som pervertido
aumentam o vazio da mesa onde canibais disfarçam línguas
o sabor da pedra na saliva
violoncelo tocado a dentes
um terço de voz morde a ossatura do dia
e a orquestração dos demônios na paciência de Jó
é o refúgio do delírio divino que grita
“quando, como um túmulo veloz, o tempo te alcançar”
um azul ao corpo instalará na pedra o som do crepúsculo
e círios soarão no campanário da carne
sonata para surdos urdida na rigidez do sol
a decomposição da música se fará no primeiro choro
com o dilúvio das horas num coração ferido a fios elétricos
mais uma dose de remédio para adoçar o brilho do olhar
que o mundo mudou de cor e todas as flautas de som
agora a orquestração dos dias pertence ao demônio das
[mínimas delícias
um rosário de vozes morde a ossatura dos anos
e minha casa foi talhada a canivete e navalha
o cuspe no rosto do tempo cultivou mais ódio na mesa diária
onde a comida rançosa não permite uma única ternura
pois dos telhados da casa escorre o breu do corpo
a única luz do velório familiar
os anos morderam as vozes da ossatura da vida
e a sobra da nossa nervura teimosa
são esses círios acesos que carregamos espetados nos olhos
a fuligem dos ossos que servimos em cristal
com o fênico desejo de carregarmos nosso próprio féretro
é igual a palhaços sem nenhuma pintura e graça
essa fuligem irônica solta no picadeiro tatua sua voz
“nas horas amargas, imagino bolas de safira, de metal”
não escondas o sorriso no bolso e tira um pássaro
dessa mão enrugada para presentear o futuro
pois o metal da taça brilha como cicuta
e morde a corda afônica dessa sinfonia
desenha no cativeiro uma gota de sangue
para atenuar as batidas do relógio onívoro
que insiste em comer em todas as mesas e beber em todas as
[taças
liberta esse pássaro da mão enrugada
antes que os círios acesos que carregamos espetados nos
[olhos virem farpas
e o sangue dos sonhos esparramados pelos lençóis
escoa na garganta da solidão urbana
devora a última flor que passeia no cimento
porque o carvão a vestiu de preto
para deleitar luxúria nos postes de nossas estradas
devora a última flor que passeia no cimento
porque nas entradas de nossas cidades a tintura telúrica do
[assombro
está estampada nas flores dos vestidos de nossas meninas
“sua navalha ele afia sobre a perna”
os pregos de minha casa sangram nas paredes
como sangraram as mãos de Cristo na tábua e no sudário
e o olhar assustado de um retrato sem beijo ou mesmo rosto
corre por cada quarto para anunciar a queima dos colchões
a incineração das vozes antecede a todo desejo
e nos resta uma sala de visita com corpos em mármore
línguas no fogo sulfúrico e a ausência da saliva
essa é a música familiar e a danação de nossa valsa
nenhuma flor para limpar o riso do violino
nenhum dedo para resgatar o piano náufrago
sim “chegamos ao limite da água mais funda”
e na loucura lúcida de estarmos respirando túmulos
expostos em uma moldura
afogamos os próprios pulmões
nenhuma flor para limpar o riso do violino
nenhum dedo para resgatar o piano náufrago
nenhum sopro para acordar a doçura da flauta
apenas os dentes a tocar agruras no violoncelo
e nos oceanos milhares de vozes a orquestrar o silêncio
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