Autor: Fernando José Karl
Poema: Travesseiro de Pedra

 


Havia um renque de árvores que sombreava
o travesseiro de pedra entre moluscos febris.
A gosma deles imprimia à pedra
um soneto cristalino e fluvial: canoa singrada.

Pórticos quebrados e nuvens sem arcas d’ouro.
Lágrimas manchavam o manto de linho:
memória do espinho ou do fracasso
de estar vivo entre objetos.

No espelho do rio flutua o renque de árvores.
Somos árvores (quiçá diamantes)
e em nossa cara de pergaminho a loucura.

Olhos sombrios de verão
meditam se soubessem meditar
sobre o travesseiro de pedra.