Diante da minha janela corre o cosmo - espanta-me
que exista tamanha grandeza dentro da esquadria de alumínio e vidro, aqui, porque o
cosmo principia no exato lugar em que se o alcança. Distraidamente, a olhos vistos,
a eternidade dos espaços infinitos principia na janela, diante de uma xícara de
café que se evapora e, também, da cidade que se derrama no planeta como se fosse uma
folha de papel-volátil. Tudo isso me felicita. Porque, no Grego, kósmos significa
ordem e também beleza, de onde deriva o vocábulo cosmético. Posso dizer que toda
essa beleza está em ordem.
Da minha janela avisto o mundo, sobre-humano, que
não me faz senti-lo muito maior do que a pequena chaminé poucos metros abaixo do meu
quarto andar. Chaminé envolta pela rabiola duma pipa que, como a cauda dum corpo
cadente, veio abraçar a torre tênue de tijolo e argamassa. Rabiola que se perdeu em
torno dos tijolos, planta parasita, mas que é, também, o abraço que tem faltado a
tantos. Chaminé com pandorga em volta, decididamente, me felicita.
Da janela, observo também o terreno baldio, na
esquadria de muros sem reboco, com a sua mata desarvorada. Se os deuses continuarem
existindo, nenhum edifício irá brotar desse lugar que é coberto, de lado a lado,
pelo pio amarelo de um canário canoro. Uns artefatos sem uso - tábua de lavar roupa,
cinza de fogueira, cavalo pastando capins maduros - compõem esse mínimo universo em
que costuma cavoucar o homem velho com o cachorro. Eles conversam, sozinhos, achando
que o infinito começa, por exemplo, no silêncio vizinho. Isso os felicita.
Da mesma janela, adivinho o ribeirão subterrâneo,
carregado em segredo por debaixo das lajes da servidão (que é um outro nome para
beco), descido desde o Morro do Horácio, enquanto, sem que se saiba, um alevino
sobrevivido corre na direção da água salobra. Mais adiante, o próprio mar, morno, se
evapora na mesma direção dos ventos fracos (na concepção de um ciclone novo?) e um
helicóptero da polícia corta a maresia ao meio. Tudo isso existe no cosmo afora da
janela.
Janela de uma felicidade puérpera - como não
dizer que eu e Colombina observávamos, daqui, não necessariamente vestidos, o cosmo?
Dessa mesma janela de onde vejo um papel pousar (um papel-pólen que se deita no
vazio), com um nome nele escrito, um nome que alguém perdeu e outro alguém irá
achar, e, por causa disso, uma felicidade nova me envelopa e a mim se endereça,
porque sei que o destino será outro e, olhos nos olhos, a remetente e o destinatário
irão pensar que o mundo nasceu de novo, só por causa do seu encontro amoroso. Isso
ainda me felicita.
Na janela, as situações mais corriqueiras alegram
- o gole de iogurte, um aceno, uma chuva que veio, depois saiu. E é nessa mesma
janela que exercito contemplar o mundo com olhos baços - hipermétrope de nascença,
sem óculos, observo o cosmo se confundir por detrás das figuras de luz, como se tudo
o que é sólido evolasse, deixando em seu lugar somente o leve aroma da sua ausência,
como a linha de luzes do Continente que desaparece. Resta a felicidade que nasce ao
descobrir-se que as coisas não são somente a sua fisionomia.
Mas, são tantas essa mesma e única janela que
quase me esquecia de ser feliz por dentro. Dou então as costas ao cosmo e, dentro de
casa, diante do mundo, a balbúrdia de livros contém nenhuma beleza aparente. Isso
também me felicita, porque recordo o pré-socrático Heráclito de Éfeso: "o mais belo
dos mundos é qual uma pilha de detritos amontoados ao acaso". E o cosmo me esquece,
atarefado que está com o seu trânsito de buracos negros e de nebulosas.
Sinto apenas uma curiosidade: diante da janela, a
menos de mil metros, na Polícia Federal, vive Fernandinho Beira-Mar 1
- não sei se, dali, ele pode avistar o cosmo; não sei de sua salga de lágrimas; não
sei de suas alegrias íntimas. Mas sinto que ele, eu, todos, temos o destino do
tamanho de nossa arte de extrair felicidade de um nada, ou de dentro, ou do cosmo.
1
O traficante carioca Luiz Fernando da Costa esteve detido na carceragem da
Superintendência Regional da Polícia Federal, em Florianópolis, de 7 de outubro
a 26 de novembro de 2005.
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