Autor: Cristiano Moreira
Poema: O arado líquido

 

“o rio sem margens, é o ideal dos peixes”
Paul Èluard




I

na tábua de marés, lemos o rio
expirando e contraindo esfíncter.

a festa da carne foi-se em quarentena
segue em procissão, em pluvial silêncio.
flores brancas nas mãos
gemem feito argila seca:
hoje é domingo de ramos
finado confinado no imaginário.

enquanto no terreiro
os couros têm espasmos
sob as palmas brancas.
nas mãos negras da noite,
o círio fluvial é conduzido.


II

da palavra rio
retiro pandorgas
mergulhos e punhetas no barranco
correntes
ferrugem, enchentes
da palavra rio
retiro sons surdos de hélices.
desta palavra, navios.

da palavra rio
um raio ou rum;
um jovem morto
completamente nu
com o cu por robalos comido
quem sabe?

fluxo; corrente alternada
entre altas e baixas marés;
um fio desencapado
                eis as corredeiras,
movimento - ronco
cardumes comendo o barro
para livrarem-se das margens.


III

destas margens, gritos:
corvina, lula, tainha, camarão!
ar retorcido expulso do pulmão

                -pendurado no ar-:

                “olha o peixe minha gente”

                ( o peixe sofrido de quinze dias
                o peixe atravessado pelo metal
                do anzol, do cárcere capital
                o peixe que fede, mas alimenta)

                “olha o peixe minha gente”
                gritava o Nego Dico no mercado

palavras ou peixes
nadando de boca a fora?
a boca desprovida de branco

antes do degelo
o cheiro do peixe
assenta-se sob as unhas devolutas.


IV

poesia não é rio
tampouco rio é poesia.
poesia é linguagem
peixe insone
caroço de manga
pedra na uretra.
a poesia deixada na página
é o melhor atentado terrorista:
é concreta e não auto-destrói-se,
auto recria-se à luz de lanternas
dos leitores;
é dicróica, um fractal, um aleph.

escrever poemas falando de poesia
é pura perda de tempo.


V

sigo o rio para mergulhar a vastidão,
mesmo intuito da linguagem
ao chegar a foz
ao encontrar a voz.

sigo o rio
mesmo sentindo fedor das margens.
raspo minha língua neste calvário
cujo rubor da face
não apenas sangue, cálice;
sol e barro do que constitui o homem
sol e aço, matéria de açoite
na constituição dos castigos
no transe chapado da noite.

sigo esta palavra carnuda
escondida entre pernas e plumas
lâmina de pântanos e passagens
um trem silencioso; o arado desta linguagem.